A história do Biquíni
A história do biquíni, a pequena e revolucionária peça
Em 1946 o corpo feminino conquistou mais liberdade com um pedacinho de pano que revolucionaria o comportamento e a moda no mundo inteiro: o biquíni.
Para revisitar a história do biquíni é preciso entrelaçar três acontecimentos com efeito dominó na moda e na política na década de 1940 nas sociedades asiática, americana e europeia. A invenção do biquíni costura detonações nucleares, pedaços antigos de folhas do jornal The New York Times e dois criativos estilistas franceses.
Em julho de 1946, militares americanos retiraram 10 mil moradores do Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, Micronésia, pois ali fariam testes com bombas nucleares. Enquanto alguns habitantes foram encaminhados para Chicago, nos Estados Unidos, outros foram para ilhas no sul do Pacífico, onde sofreram os efeitos colaterais da parafernália radioativa. Para que os médicos americanos pudessem examinar as pessoas, que estavam completamente nuas, já que a radiação havia destruído suas roupas, os militares usaram folhas de exemplares velhos do jornal The New York Times para cobrir pelo menos as partes íntimas dos doentes.
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No mesmo período, corria na França a notícia sobre a série de detonações nucleares no Atol e sobre a lenda do jornal-lingerie no Pacífico. Foi então que o estilista Jacques Heim desenhou quatro triângulos em uma folha de papel e os costurou em fino algodão, criando assim um novo traje de banho. Parece familiar? Mas o nome de Heim se perdeu na história, eclipsado pelo estilista francês Louis Réard. Inspirado na ideia de Heim ou por um puro impulso criativo de rasgar o maiô ao meio, Réard costurou um novo traje de banho, batizado com uma das palavras mais em voga na época: Bikini.
A sociedade ficou escandalizada diante da miudeza da peça, tanto que as modelos não queriam ser fotografadas com ela. Eis que a stripper Micheline Bernardini se tornou a primeira mulher a desfilar o traje, na borda de uma piscina pública de Paris, no dia 5 de julho de 1946.
E Deus criou a mulher… E o homem criou o biquíni
Década de 1950: Marilyn Monroe vestia uma versão comportada do biquíni, mas a francesa Brigitte Bardot abriu portas para a aceitação das peças mais ousadas, principalmente por sua postura como sex symbol engatilhada com o filme E Deus criou a mulher (1956).
As atrizes hollywoodianas e as pin-ups americanas foram as maiores divulgadoras do biquíni. Ao longo da década de 1950, as resistências conservadoras foram paulatinamente vencidas até que a peça se tornou um hit no mundo inteiro no início dos anos 1960.
REPRODUÇÃO/DEDOC
Década de 1960: Úrsula Andress teve um papel importantíssimo para a história do biquíni. No filme 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), a atriz sai do mar vestindo um modelo que ficaria marcado na memória do cinema – tanto que, quarenta anos mais tarde, a atriz Halle Berry, em uma nova versão de Bond Girl, faria uma cena no filme 007 - Um novo dia para morrer (2002) com um modelo nitidamente inspirado no de Andress. Trata-se de uma releitura de um dos momentos mais sexy para os fãs das aventuras do agente secreto.
Ao flertar com o cinema, o biquíni foi conquistando mais adeptos ao redor do mundo. A peça, antes censurada pelos conservadores, era desfilada agora por atrizes glamourosas. Na trilha desbravada pelo cinema, o biquíni invadiu praias mundo afora.
Década de 1970: A controversa tanga é criada na era disco. Minúscula, a versão tropicaliente do biquíni surgiu “por acaso” no Rio de Janeiro. A modelo Rose Di Primo é considerada a inventora do modelo. Diz a lenda que, ali mesmo, na areia da praia, surgiu a ideia de unir dois microtriângulos de tecido em um cordão. A partir de então, vários modelitos minimalistas foram desenhados, cada vez menores.
Made in Brazil
Década de 1980: No Brasil, a criatividade estava em pleno vapor. Foram muitas ideias mirabolantes, desenhadas com cavas abissais, crochês e balangandãs. Vários verbetes diminutivos entraram para o glossário da moda praia: “enroladinho” (modelo com as laterais da calcinha retorcidas), “cortininha” (com um sutiã de dois triângulos unidos por um fio), “lacinho” (com fios coloridos nas laterais e no top). O asa-delta e sua cava escandalizante foram ofuscados pela ousadia da criatividade brasileira com o pequeníssimo fio-dental.
Década de 1990: No Brasil, o estilo retrô fez sucesso, com releituras dos biquínis mais românticos e comportados. Os clássicos voltaram às areias brasileiras. Um paradoxo, na verdade, pois o estilista Karl Lagerfeld apresentava Naomi Campbell com uma provocativa tanga com logotipo Chanel, em Paris, em 1993. Tempos depois, a top inglesa passou a desfilar diversas vezes para a grife Rosa Chá, incluindo visitas às semanas de moda brasileiras. Em 2005, ela posou para a coleção Naomi Campbell by Rosa Chá.
A moda praia conquistaria espaço aliando-se à tecnologia para produzir tecidos melhores para os banhos de mar e de piscina. A partir da década de 1990 e ao longo dos anos 2000, tecnologias como laser e proteção contra raios ultravioleta foram incorporadas aos retalhos que conquistam páginas, passarelas e praias a cada verão.
ANTONIO MILENA/DEDOC
Anos 2000: Não há mais fronteiras para a criatividade. Os biquínis brincam com as cores (modelos monocromáticos ou multicoloridos, lisos ou estampados, listrados ou com as famosas bolinhas amarelinhas), com os formatos (modelos antigos como “engana mamãe”, tops “tomara que caia”, frente única e bojos aerodinâmicos dividem espaço com calcinhas despojadas estilo sunga e maiôs retrô) e com os detalhes (pingentes de strass, argolas metalizadas e babados românticos).
Na maré de criações inovadoras e cortes estilosos, o biquíni brasileiro realmente conquistou as passarelas internacionais com o toque sexy dos trópicos. Grifes como Cia Marítima, Lenny, Movimento, Rosa Chá e Salinas ganham posição de destaque. De lá para cá, as marcas buscam explorar as mais diferentes possibilidades nas criações contando com a ajuda das novas tecnologias em tecidos e acabamentos. O desafio agora é continuar surpreendendo a cada estação.






